PBI entrevistou a lendária banda punk do RS, Suco Gástrico. Rock, drogas e uma aula de perseverança.
Dificilmente uma banda se mantém apoiada nos escassos escombros da sociedade capitalista. A mídia segue, tentando devorar aqueles que realmente buscam a independência musical. A banda Suco Gástrico foi talvez a primeira banda de punk rock a mostrar os vômitos da revolta para todo um estado.
Suco, vocalista e fundador da banda, conta nesta entrevista sua visão política, social e também historias sobre o inicio de um legado onde o preço foi assistir de perto a tortura física, mental e ver alguns de seus parceiros irem embora sem se despedir, durante a ditadura militar e também pelo abuso das drogas. Uma conversa descontraída e muito prazerosa com o verdadeiro sobrevivente da cena punk nacional.
O que despertou em você o desejo de formar uma banda de punk, o porquê?
Suco: Bom, começou por volta de 1981 quando tínhamos um movimento revolucionário estudantil. Queríamos liberdade de expressão e abertura política
E decidiu já entrar com uma banda de punk rock? Não era barra pesada na época?
Suco: Muita barra! Pois é, tirávamos um som da garagem do meu avô, que nos apoiavam muito. A ditadura militar estava muito nervosa nessa época, mais a maior influência veio da própria família.
Tive um tio meu que foi levado por militares e assim como várias outras pessoas, ele nunca mais foi encontrado, foi muito triste para a família, isso revolta. Em 80 já nos reuníamos escondidos assim como outras bandas no naipe como “Cólera” e “Resto de Nada”, eu estava em São Paulo nessa época.
O que você escutava nessa época que te influenciava?
Suco: Sem prepotência, mas boa parte das minhas influencias vem de mim mesmo, pelo que passei, já nasci com a ideologia punk, já respira isso entendeu?
Tinha muitas idéias que para a época eram muitas subversivas, fui preso varias vezes por não concordar com o sistema, com toda aquela imposição contra um povo.
E o nome sempre foi esse? De onde surgiu a o nome Suco Gástrico?
Suco: Putz cara! Isso foi numa puta bebedeira, os caras começaram a vomitar juntos, ai surgiu o nome! Ai a Suco Gástrico saiu na lata né!
E quanto a formação? Como mantém isso na banda?
Suco: Foram varias formações já perdi dois músicos. Um faleceu por drogas o outro foi assassinado, “Peter Alemão”, nosso baterista , “Gabriel” nosso baixista, foi muito triste, hoje toco com uma garotada nova, muitos eram fãs da Suco Gástrico e hoje são músicos. J fomos assaltados em show beneficente e até tiro tomamos no pé, a correria e louca mesmo, (risos).
E nesses 28 anos de banda, o que mais marcou ao longo dessa trajetória, que é uma grande batalha, vocês são dignos de muito respeito.
Suco: Já passamos varias e boas, o que marca na suco é a capacidade de renovar e permanecer fiel as origens do puro punk rock. Com 86 canções próprias que na realidade são poemas meus que retratam o dia dia de todos nós a suco também trabalha em projetos sociais, dou aula em favelas, ensino adultos a ler e escrever.
Dias atrás estava na galeria do rock, e vi dois garotos usando uma camisa do Toys dolls, com moicanos e ao mesmo tempo discutindo em saber qual era a melhor musica do Nx zero, confesso que me deu vontade de dar um tiro neles! Com base na nova geração do rock, o que você enxerga neles, e nessa mídia capitalista que tenta mascarar as origens?
Suco: Putz cara, nada valido, o jovem tem hoje a liberdade que nos conquistamos para que ele possa usar em seu favor, isso foi minha luta! Mas infelizmente muito pouco se aproveita disso, dessa herança, não valorizam as causas do passado sem perceber que nela está o seu futuro.
Hoje moicano é um artefato da moda, era nossa marca registrada do descontentamento da juventude.
E quais são as bandas que você pode citar que mantiveram as suas raízes?
Suco: Cólera,Restos de Nada e Os Replicantes ,entre outras que continuam na luta ou deixaram suas obras para futuras gerações, se não citei algumas faltou na memória
E sobre a forma como você grava suas musicas, qual é a dificuldade nisso?
Suco: Somos uma banda de poucos recursos financeiros, punk rock não dá dinheiro nem e essa intenção. Mas conseguimos com algum sacrifício realizar nosso trabalho.Vejo muita mídia, resolvemos entrar nessa por que a garotada que toca comigo acha importante, e eles devem ter alguma razão nisso
Já tocaram em São Paulo, apos a formação da banda?
Suco: Dessa formação não, mas já tocamos há muito tempo lá atrás. Tocamos no Rio, Curitiba, Porto Alegre, Mato Grosso do Sul, Sergipe e porá outras bandas afora.
Nossa musica é muito agressiva tem foco político e não fala de amor. Só de problemas sociais como saúde, lazer, tecnologia, educação, trabalho e tudo que falta para o povo .
A visão da hipocrisia sempre proclamou e colocou lado a lado o uso de drogas com o rock, tivemos também muitas perdas, pessoas valiosas se foram devido ao abuso, você mesmo passou por essa experiência, então, com vê esse lance de drogas e rock and roll?
Suco: Putz é meio complicado, é que cada cabeça tem sua sentença, mais sou triste com o que essa tal pedra (crack) faz com nossa juventude. Câncer? Epidemia? Caos! Eu particularmente nunca usei drogas para tocar ou para criar.
Qual a musica (poesia) que mais expressa tua visão, e a mensagem que vocês querem passar para o publico?
Suco: “Ricos Mais Ricos Pobres Mais Pobres” essa letra é muito forte ou “Liberdade Para Nação” que é muito escutada pela galera.
O que mais marcou em um show de vocês?
Suco: A galera se mata cara, é muito bom, eles curtem pra caralho, do principio ao fim do nosso show, e cantam todas as letras.
Sente falta dos anos 80? Mande um recado para a molecada que está começando agora.
Suco: Sinto sim, mas o importante e que também fiz o que tinha que ser feito fui as ruas pintei minha cara e espero que isso seja valorizado ,porque hoje vocês tem um futuro, um futuro promissor, um mundo que vocês podem refazer de sua maneira ,essa é a minha parte na historia,isso é a Suco Gástrico!
|